Assistindo você me assistindo
Uma boa maneira de adormecer
A luta dos vizinhos
Enquanto nós dois descansamos nossos olhos
Por dentro ela
vivia em um torpor inalcançável, só se conhecia uma pessoa que podia tira-la
desse silêncio que se fazia quando ela se sentava na antiga poltrona de seu
apartamento e ficava horas olhando pela janela. Volta e meia ela virava o
rosto, olhava ao redor, suspirava, e concentrava-se de novo em algum ponto
indistinto na paisagem.
De repente um
pequeno ser sussurra inaudivelmente um fraco ‘mamãe’ e ela acorda. Pega a criança no colo e a balança com um ritmo
lento murmurando alguma canção de ninar antiga. Está é a parte favorita de seu
dia. Quando elas estão juntas, uma acariciando, confortando a dor da outra. A dor
da perda.
Leva sua filha
para o banho, a prepara para a escola, prepara-se para o trabalho. Com outro
suspiro sai de casa, arrumando o cachecol para o vento cortante acompanhado de
neve, e vai pra a segunda parte de sua rotina. Inverno sempre fora sua estação
favorita, também era de sua filha, e de seu falecido marido. Esta família gostava
do estranho conforto que o frio trazia.
Correndo, já
alegre, para a escola a jovem criança entra na creche, feliz por estar
acompanhada por outros de sua idade. Depois de alguns minutos a mãe sai andando
para a editora onde trabalha. Mais alguns textos pra traduzir, alguns livros
para revisar, depois poderia estar na segurança de sua casa, sozinha com suas
lembranças.
O pior de tudo
era a saudade que volta e meia assolava. A falta que seu companheiro fazia
chegava a doer só de olhar, de pensar, e doía pior ainda ao sentir. O mundo
começou a ser diferente depois que ele se foi.
Lembrou-se de
sua filha, o pequeno presente que Deus havia lhe dado depois da perda. Era triste
pensar que seu marido nunca soube do bebê que ela esperava. Suspirou de novo.
Todos os dias era a mesma coisa. O mesmo sentimento que lhe machucava tanto
começava a ser mais forte quando estava sozinha.
Horas depois,
parada em frente a colorida escola, em meio a neve via sua filha correndo em
sua direção. Momentos antes, quando a saudade as vezes doía mais que o normal,
pensou em desistir. Mas não, desistir significava abandonar, deixar, largar e
ela não podia fazer isso. Não quando a razão de tudo vinha até ela daquele
modo. Não quando sua pequena e mais forte lembrança a abraçava daquele jeito,
feliz somente por vê-la. Não quando tudo
que conheço se desfaz, e bem, não quando
a razão de eu voltar pra casa estivesse ali.
Você é a razão de eu voltar pra casa
Você é a razão de eu voltar pra casa
Meu amor
Você é a razão
Que quando tudo
Que eu conheço se desfaz
Bem
Você é a razão de eu voltar pra casa
Roberta Rodrigues 09/02//2013