sábado, 9 de fevereiro de 2013

Minha Razão






Assistindo você me assistindo
Uma boa maneira de adormecer
A luta dos vizinhos
Enquanto nós dois descansamos nossos olhos


Por dentro ela vivia em um torpor inalcançável, só se conhecia uma pessoa que podia tira-la desse silêncio que se fazia quando ela se sentava na antiga poltrona de seu apartamento e ficava horas olhando pela janela. Volta e meia ela virava o rosto, olhava ao redor, suspirava, e concentrava-se de novo em algum ponto indistinto na paisagem.
De repente um pequeno ser sussurra inaudivelmente um fraco ‘mamãe’ e ela acorda. Pega a criança no colo e a balança com um ritmo lento murmurando alguma canção de ninar antiga. Está é a parte favorita de seu dia. Quando elas estão juntas, uma acariciando, confortando a dor da outra. A dor da perda.
Leva sua filha para o banho, a prepara para a escola, prepara-se para o trabalho. Com outro suspiro sai de casa, arrumando o cachecol para o vento cortante acompanhado de neve, e vai pra a segunda parte de sua rotina. Inverno sempre fora sua estação favorita, também era de sua filha, e de seu falecido marido. Esta família gostava do estranho conforto que o frio trazia.
Correndo, já alegre, para a escola a jovem criança entra na creche, feliz por estar acompanhada por outros de sua idade. Depois de alguns minutos a mãe sai andando para a editora onde trabalha. Mais alguns textos pra traduzir, alguns livros para revisar, depois poderia estar na segurança de sua casa, sozinha com suas lembranças.
O pior de tudo era a saudade que volta e meia assolava. A falta que seu companheiro fazia chegava a doer só de olhar, de pensar, e doía pior ainda ao sentir. O mundo começou a ser diferente depois que ele se foi.
Lembrou-se de sua filha, o pequeno presente que Deus havia lhe dado depois da perda. Era triste pensar que seu marido nunca soube do bebê que ela esperava. Suspirou de novo. Todos os dias era a mesma coisa. O mesmo sentimento que lhe machucava tanto começava a ser mais forte quando estava sozinha.
Horas depois, parada em frente a colorida escola, em meio a neve via sua filha correndo em sua direção. Momentos antes, quando a saudade as vezes doía mais que o normal, pensou em desistir. Mas não, desistir significava abandonar, deixar, largar e ela não podia fazer isso. Não quando a razão de tudo vinha até ela daquele modo. Não quando sua pequena e mais forte lembrança a abraçava daquele jeito, feliz somente por vê-la. Não quando tudo que conheço se desfaz, e bem, não quando a razão de eu voltar pra casa estivesse ali.

Você é a razão de eu voltar pra casa
Você é a razão de eu voltar pra casa
Meu amor
Você é a razão
Que quando tudo
Que eu conheço se desfaz
Bem
Você é a razão de eu voltar pra casa

Roberta Rodrigues 09/02//2013

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